Márcia Beatriz na Revista Metrópole

África dita tendência em adornos

Arte pura: feitas com material orgânico, as biojóias remetem à mistura de etnias e ganham status extra com o sucesso de uma elite negra encabeçada por Barack Obama

Eduardo Gregori
gregori@rac.com.br

Vai longe o tempo em que os negros brasileiros se prostravam diante do preconceito. Os descendentes da “mama África” estão conquistando cada dia mais espaço na sociedade. Na próxima quinta-feira, o Dia da Consciência Negra será comemorado com um sabor especial. Há duas semanas, foi eleito Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, uma conquista até bem pouco tempo inimaginável. “Ele é o novo presidente dos Estados Unidos, mas também um símbolo para os negros de todo o mundo”, observa a designer de biojóias Márcia Beatriz.

Pelo planeta, outros Obamas espalham sementes na luta contra o racismo. Em Campinas, a designer é um mais um exemplo, e usa a arte para demonstrar a beleza e a força da cultura afro. Metrópole conversou com a autora durante os preparativos da tradicional Afro Mix, feira realizada hoje, a partir do meio-dia, na Estação Cultura, na qual a artista expõe.

Metrópole – Desde quando você se interessa por criar jóias com inspiração afro?
Márcia Beatriz
– A minha ligação com a arte vem desde a infância. Minha mãe não me deixava ver televisão sem fazer outra coisa junto. Ela me ensinou a fazer crochê, por exemplo. Assistia a desenhos animados e fazia crochê ao mesmo tempo. Isso foi muito bom porque eu aprendia enquanto me divertia. Do crochê, comecei a cozinhar e fui me interessando por tudo que envolvia trabalhos manuais. No entanto, não encontrava em Campinas assessórios com inspiração afro. Mesmo assim, achei que poderia fazer alguma peça. Há dez anos, comecei a produzir brincos, colares e pulseiras para mim, mas quando saía nas ruas as pessoas perguntavam onde eu tinha comprado. Elas me estimularam a vender, mas isso demorou um pouco. Antes eu quis pesquisar materiais, tendências etc.

Que materiais você utiliza nas biojóias?
Gosto de usar elementos naturais. A natureza e os materiais rústicos têm tudo a ver com a África. Utilizo ossos, sementes, palha, pedras, dentes e não descarto o uso de metais.

As jóias com inspiração africana agradam exclusivamente às mulheres negras?
Não, pelo contrário. Muitas mulheres brancas adoram os assessórios africanos. Eles são exóticos e bonitos. As consumidoras não associam a peça com cor da pele. É bonito e elas gostam. O meu público é formado principalmente por mulheres brancas que procuram biojóias, que estão na moda.

De onde vem a sua inspiração?
Não sei de onde vem. O desenho simplesmente aparece na minha mente. Às vezes, sonho com uma peça e acordo no meio da noite para começar a produzi-la. Não sei desenhar e por isso tenho que produzir assim que imagino algo novo.

Onde a consumidora encontra suas jóias?
Eu venho conquistando espaço e firmando meu nome. Muitas mulheres que gostam de acessórios afro já reconhecem uma peça minha quando a vêem. Atualmente, vendo para lojas em Salvador e, em Campinas, algumas lojas no Cambuí me pedem peças. Estou começando a investir em um site (www.marciabeatriz.com.br) para que mais pessoas tenham contato com o meu trabalho.

Você falou sobre Salvador... Como foi sua primeira visita à capital mais negra do Brasil?
Foi mágico. Chorei muito quando visitei o Pelourinho. O lugar tem uma carga emocional muito grande. Para nós, é impossível não se emocionar. Gostei tanto da Bahia, que fiz muitos amigos e volto sempre.

E a África? Você pretende conhecer?
Sim. Tenho verdadeira loucura por conhecer a África. Estou planejando ir em breve.

Quando você pensou em utilizar a arte para valorizar a cultura negra?
Desde criança trago comigo o orgulho de ser negra. Nunca fui como outras meninas negras que sonhavam em ter cabelo liso, como os das pessoas brancas. É uma coisa natural em mim, não aprendi a valorizar a minha cor na escola ou em outro lugar.

Então, desde criança você está antenada com a cultura africana?
Não. Estou descobrindo tudo aos poucos. Sempre gostei de me vestir como uma africana, mas não tinha consciência de que estava fazendo isso. Para mim, era o meu estilo. Fui criada em uma família católica e apesar de muito a religião, não me identificava muito com ela. Então, fui estudar as religiões afro, como o candomblé, e estou gostando muito, principalmente dos costumes, da força e da arte que brota dos terreiros. Também foi uma surpresa para mim saber que as jóias que produzo têm uma ligação com orixás. Outro dia, estava em um terreiro e uma mãe de santo me disse que a minha arte tinha muita influência dos orixás.

Como você vê a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos?
Acho que é uma vitória. Ele é o novo presidente dos Estados Unidos, mas é um símbolo para os negros de todo o mundo.

As pessoas estranham ou apreciam o seu estilo étnico de vestir?
Acham bonito. Muita gente acredita que não sou brasileira. Quando estou em algum hotel em outra cidade, vêm falar comigo em inglês. Eu me divirto. Acho que o negro tem que valorizar suas características étnicas. Gosto muito da cantora Luciana Mello, que não esconde o cabelo pixaim e fica muito linda com ele solto. Meu cabelo não cresce muito e não tem volume, por isso optei pela careca e gostei. Às vezes, para completar o visual, uso torço (espécie de chale ou manta que se enrola na cabeça como turbante).

Você está expondo hoje na feira Afro Mix. Campinas sempre foi uma cidade negra?
Sim. A comunidade negra de Campinas sempre teve o seu lugar. Nos anos 70, a gente tinha orgulho de sair com um black power na cabeça. A minha turma se reunia no Cambuí e descia a Rua General Osório até a Praça Carlos Gomes, onde antigamente ficava a feira hippie. Nosso programa era passar a tarde de sábado na feira. A gente paquerava muito e combinava para sair à noite.

Qual era o programa noturno preferido da comunidade negra dos anos 70?
Dançar. Nessa época aconteciam muitos bailes black no Sesc, na Fonte São Paulo, no Tênis Club e na Casa de Portugal. A gente curtia dançar e ir a shows de artistas negros como Sandra de Sá e Tim Maia, que vinham sempre a Campinas.

E hoje, onde fica o reduto da cultura negra da cidade?
Acho que está pulverizado por todos os lados. Existem vários bares que cultuam a música negra, como o samba-rock, o pagode e o samba. A sede da Vila Teixeira talvez seja o lugar que mais luta para manter a cultura negra de Campinas. Uma vez por mês, os moradores fazem o Pagode da Vó Tiana, que reúne gente de todos os cantos da cidade.

Você é formada em serviço social. Que parceria poderia existir entre a arte e o social?
Eu sempre penso em ensinar a minha arte, ter um lugar para passar adiante o que aprendi.

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